domingo, 8 de fevereiro de 2026

CONSCIÊNCIA DE CLASSE * Antonio Cabral Filho/RJ

 CONSCIÊNCIA DE CLASSE

- Ainda tem café de dois... Perguntou o transeunte humildemente.

- Claro! Terá sempre. Não é por que aumentam os preços de tudo que vou deixar meus amigos sem um cafezinho. 
Respondeu o vendedor ambulante, com sua banquinha na calçada.
- Mas está difícil, sabe... Tem camelô vendendo a 4,00 dois dedinhos de café. E é café aguado, maior xarope! É muita usura. 

Concluiu o forasteiro e virou o copo na boca, saboreando o café.
- São capitalistas esses tipos. Nunca bateram o cartão de ponto. Se acham muito espertos... 
Argumentou o vendedor.

- Uns ate dizem que são empreendedores...mas valeu aí. Vou me adiantar pra reunião.
- De sindicato?
- Não. 
E voltou sorrateiramente pra dizer baixinho: partido.
- Partido? Já tem candidato?
O outro respondeu bem calmamente:
- Partido não tem obrigatoriamente que ter candidato. Tem que ter um programa de lutas pra fortalecer seus filiados e agitar a mobilização por mais direitos.

- Ah, sim. Entendo. Eu posso participar?
- Claro! Quando você pode ir?
- Pode ser agora?
- Claro. Arruma as coisas na mochila que eu levo a banquinha.

- E lá se foram juntos pra reunião do partido.

Antonio Cabral Filho/RJ

domingo, 1 de fevereiro de 2026

CONCEITO MARXISTA DO HOMEM * Antonio Cabral Filho/RJ

CONCEITO MARXISTA DO HOMEM

Genro de agricultor queria plantar mandioca, mas não sabia se estava na época certa. Então foi consultar o sogro.

- Bom dia Sogrão. Tudo Bem? Já tomou café?

O sogro era um sujeito arisco, de poucas palavras, às vezes anti social, mas respondeu.

- Bom dia Boavida. Tudo bem, já tomei café sim, às cinco da manhã.

O genro sabia disso. Tudo no Sogrão era assim, bate-pronto. Então foi direto ao ponto e perguntou:

- Sogrão, estou querendo plantar umas ramas, mas não sei o momento certo, o preparo do terreno, quantos toletes por cova, essas coisas. Mas o senhor planta em que lua?

O sogro não perdeu tempo e largou-lhe o aço:
- Boavida, o momento certo é quando você tiver coragem; o terreno tem que estar limpo; e só se coloca um tolete por cova. Agora, plantar eu só planto na terra porque na lua não dá, eu não posso ir lá.

- Tá bom. Respondeu o genro e saiu de fininho. Mas a tempo de ouvir o riso sarcástico do sogro resmungando: plantar mandioca na lua, onde já se viu....
*

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MEU DEUS, ESSAS GUERRAS * Antonio Cabral Filho/RJ

MEU DEUS, ESSAS GUERRAS

Os disparates que ocorrem no mundo, como a guerra da Ucrânia, na Palestina, os bombardeios na Venezuela, no Irã, não são coisas ocasionais.

Por exemplo, o preço do bujão de gás nesses lugares está um assalto devido a essas guerras, mas e aqui? Por que estamos pagando 100, 110, 115, 120, 125 ou mais, se somos um país produtor?

Agora há pouco encontrei um vizinho pedindo 50, 00 no bujão vazio pra inteirar e comprar um cheio. Por quê isso?

Bom, ele é biscateiro, vive de bico, nunca assinou carteira. Como ele o país tem milhares. Mas o que explica a professora da minha neta estar vendendo empada no portão, se ela é uma pessoa qualificada, com curso superior e tudo?

Por que existem essas coisas? Como um pai de família desqualificado e uma professora se encontram em situações idênticas?

Bom, no caminho do supermercado pra casa encontrei um menino com uma mesa na calçada cheia de celulares, segundo ele, todos novinhos, que estava explicando a guerra do lítio no cone sul da América.

Aí veio um estalo em minha cabeça. Essas guerras todas por aí tem um fundamento: os recursos naturais, a energia, a água, enfim, recursos estratégicos, tanto pra corrida tecnológica como financeira.

Afinal, os investidores não dormem no ponto!

ANTONIO CABRAL FILHO/RJ

sábado, 24 de janeiro de 2026

Dona Marcela * Autoria coletiva

Dona Marcela

-Desculpe… para onde está me levando?— perguntou a mulher baixinho, olhando confusa pela janela do carro.
_-Dona Marcela, chegamos. Este é o lar de idosos “Santa Ana”. A partir de hoje, a senhora vai ficar aqui._
- Ficar aqui? — a voz dela tremia. - E a minha filha?
_- Ela não vem?_
_- Disse que vai telefonar,_ — respondeu o motorista, colocando no chão uma pequena bolsa: um casaco, uma escova, uma fotografia antiga.
_- Muita saúde, dona Marcela. A senhora vai se sentir bem aqui._

O carro partiu.
Marcela ficou sozinha, com o vento frio acariciando-lhe o rosto úmido.

Na porta, uma mulher de bata azul a esperava.
- Seja bem-vinda, dona Marcela. Eu sou a Nicoleta, enfermeira aqui. Venha, vou levá-la para o seu quarto.
- Quarto? Eu tinha uma casa… um jardim… e flores…
- Aqui também vai ter flores, vai ver, — respondeu Nicoleta com doçura.

O quarto era pequeno, mas limpo. Na cama ao lado dormia uma senhora idosa.
- O nome dela é tia Ileana, — explicou Nicoleta.
- ⁠Fala pouco.
- Tudo bem,— sorriu Marcela. - Eu nunca fui boa em ficar calada.

Os dias passavam devagar.
Os moradores eram silenciosos, cansados, cada um com suas lembranças.
Alguns esperavam visitas que nunca chegavam, outros viviam apenas do passado.

Mas Marcela não sabia ficar parada.
Certa manhã, pediu uma pá.
_O que vai fazer, dona Marcela?_— perguntou o porteiro.
- Preciso de um pedaço de terra. Quero plantar flores.

E plantou — hortelã, manjericão, calêndulas.
— Aqui vai ser a nossa primavera, — dizia às outras. — Se não temos o que esperar, vamos esperar florescer.

Algumas semanas depois, o pátio cheirava a vida.
Um dia, tia Ileana sussurrou:
— Cheira à infância…
- Sim, minha querida. À infância e a Deus,— respondeu Marcela.

Daquele dia em diante, Ileana voltou a falar.

Marcela foi falar com a diretora:
- Deixe-nos fazer uma pequena oficina de costura e histórias. Todo mundo tem uma história. Se a gente não contar, ela morre com a gente.


A diretora sorriu.
— Está bem, dona Marcela. Se conseguir reunir o pessoal, eu arranjo os materiais.


E conseguiu.
Poucos dias depois, a sala de jantar estava cheia de vozes, risos e linhas coloridas.
— Eu fui costureira em Iași! — dizia uma.
— Eu fazia roupas para artistas! — acrescentava outra.
Marcela ria:
- Viram? Ainda estamos vivas. Temos mãos, temos coração. Só faltava vontade.

A primavera verdadeira chegou.
O lar estava diferente: flores por toda parte, paredes pintadas, rostos sorridentes.
Na porta, um poema de Marcela dizia:

”Não importa onde é a tua casa, importa ter alguém que te escute, e um pedaço de céu onde possas dizer ‘obrigado’.”

Num domingo, um carro elegante parou em frente ao portão.
Dele saiu uma mulher jovem, elegante.
— A minha mãe está aqui. Marcela Ioniță.

Marcela estava no jardim, regando as flores.
- Irina…
— Mamãe… vim te levar para casa.
- Para casa? — sorriu. - Eu já estou em casa.

— Mamãe, me perdoa… achei que estava fazendo o melhor.
- Você fez o que sabia, minha filha. Mas veja — essas pessoas não têm mais ninguém. Se eu for embora, quem vai regar as flores delas?

— Mas você não é obrigada a cuidar delas, mamãe.
- O amor não é obrigação, Irina. É presente.

Irina olhou ao redor — flores, paz, sorrisos.
— É bonito aqui, mamãe.
- É. E o mais bonito é que eu achava que a vida tinha acabado… e ela só estava começando.

Desde então, Irina vinha todos os fins de semana.
Trazia frutas, doces, roupas.
Marcela a apresentava com orgulho:
- Esta é a minha filha. Ela me ensinou que não devemos ficar magoados com quem nos deixou. Devemos apenas mostrar que ainda sabemos ser felizes.

Com o tempo, a diretora lhe disse:
— Dona Marcela, todos aqui a amam. Queremos que seja coordenadora das atividades.
- Eu? Com setenta e três anos? — riu ela.
— Sim. A senhora é a alma deste lugar.

E assim, ela se tornou “dona Marcela” — a mulher que trazia esperança.
Escrevia poemas, preparava chá de hortelã, organizava noites de canções.
— De onde vem tanta força? — perguntou Nicoleta.
— Das lágrimas que decidi não chorar. Transformei-as em sorrisos.

Três anos depois, o lar “Santa Ana” não era mais um lugar de solidão, mas de vida.
Os jornais escreveram: “Os idosos que renasceram graças a uma mulher simples.”

Marcela recebeu uma homenagem da prefeitura.
Ao subir ao palco, disse apenas:
- Obrigada. O maior prêmio é saber que ainda temos um propósito. A felicidade não vai embora com a juventude — vai embora quando deixamos de amar.

Numa manhã, Marcela partiu serenamente, enquanto dormia.
Na mesinha de cabeceira, um bilhete:

Não chorem.
Fui apenas regar as flores do outro lado.
Cuidem uns dos outros.
O amor nunca se aposenta.

Irina encontrou o bilhete e chorou — não de tristeza, mas de gratidão.
Continuou o que a mãe havia começado: visitava, ajudava, trazia flores e histórias.

E assim, uma mulher simples, esquecida, tornou-se o início de uma nova vida para muitas almas.

Porque às vezes não é preciso mudar o mundo inteiro.
Basta regar uma flor.
E um coração.

H
Repasssem, por gentileza!
Histórias como estas, não podem ficar somente no seu celular.
Que quando chegarmos à nossa vez, sejamos a DONA MARCELA em criar novos tempos de sermos útil...
Um beijão para todos..
*

sábado, 12 de novembro de 2022

MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA * José Estanislau Filho - MG

 MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA 

<a target="_blank" href="https://www.amazon.com.br/b?_encoding=UTF8&tag=antoniocab066-20&linkCode=ur2&linkId=1730d5b0e4a4a2752b35e772f55c380a&camp=1789&creative=9325&node=7841731011">pagu</a>


Entre muitas que dedicaram sua vida pela emancipação e igualdade de gênero, destaco algumas em uma homenagem simbólica ao legado de todas. Momento de erradicarmos o machismo e o patriarcalismo.

 

PAGU


(1910-1962)


O nome de Pagu é rapidamente associado a transgressões e ao feminismo brasileiro. Por registro Patrícia Rehder Galvão, ela nasceu no interior de São Paulo, mas cresceu na capital paulista. Foi na metrópole que confrontou os costumes, numa época em que a sociedade impunha para as mulheres somente o papel de boa esposa, mãe e dona de casa. Também iniciou sua vida política e no socialismo.

Nas artes, sua versatilidade e rebeldia resultaram em cartas, artigos, poesias e outras criações. Se filiou ao Partido Comunista Brasileiro e foi, inclusive, morar numa vila operária. Visitou a China e a União Soviética, mas com o passar dos anos de militância se tornou uma das primeiras críticas do socialismo real e também do sectarismo da “proletarização” a que foi submetida no PCB. Por outro lado, sempre lembrou com emoção do companheirismo que vivenciou nos encontros do partido

José Estanislau Filho-MG

domingo, 22 de março de 2020

Olha o Verdureiro! * J Estanislau Filho - MG

Olha o Verdureiro!



Esta crônica foi escrita em 1994. Relutava publicá-la, pois, como se sabe, o gênero retrata um momento. Eis que a cena está de volta. Faz parte do meu livro de bolso, Crônicas do Cotidiano Popular - edição do autor - 2006 - esgotada.




Todo dia ele sai com seu carrinho de mão, lotado de verduras. Sai gritando pelas ruas: - Olha o verdureiro!
  Sua chegada acontece em boa hora, para definir o cardápio do dia. Pronto: - nada de frango, hoje vamos comer couve com torresmo e angu – diz alguém na cozinha.
 No início o grito e as batidas no portão (nem todos têm interfone) incomodavam, pois podíamos estar no banheiro ou com uma panela no fogo. Mas fomos nos acostumando, a tal ponto, que quando chega lá pelas dez horas, sentimos sua falta.
  Seu grito ecoa em nossos ouvidos. Às vezes ele tarda e falha. Pode estar percorrendo outras ruas do bairro.
  Nestes tempos de modernas tecnologias, quando se compra de quase tudo sem sair de casa, pela internet ou pelos tele-vendas, estranho que ainda não tenha surgido no mercado os tele verduras. Ainda dependemos do verdureiro com o seu arcaico carrinho de mão. Contudo, hoje ele faz parte do nosso cotidiano. Bendito verdureiro que nos poupa o sacrifício da caminhada ao supermercado ou ao sacolão em busca de um pé de alface.
 É, mas é bom irmos colocando as barbas de molho, pois, segundo o Presidente da República, o país não pode conviver mais com modelos ultrapassados, precisa se modernizar. “Quem pode, pode, quem não pode se sacode”, diz o dito popular.
 Por conta desta tal “modernidade globalizada”, com o desemprego aumentando a cada dia foi que o nosso irmão verdureiro buscou uma saída, para ganhar o seu pão de cada dia. Também conhecida por “atividade informal”, uma maneira sutil e cínica de classificar o cidadão desempregado e sem carteira assinada, sem eira nem beira, que tenta se agarrar a uma tábua de salvação, para escapar do naufrágio da fome.
   Não sabemos até quando ouviremos o grito:

OLHA O VERDUREIRO!

J Estanislau Filho
...

sábado, 21 de março de 2020

A BOCA DO VENTO: Uma eterna fonte inspiradora * João Rodrigues Pinto - SP

A BOCA DO VENTO: Uma eterna fonte inspiradora


-tripadivisor-

“João Pinto, de onde nasce a inspiração para escrever seus livros?” - Volta e meia alguém faz essa pergunta, quando o assunto é literatura. Ora, a resposta não poderia ser mais óbvia. Toda a minha inspiração nasce das memórias de Gado Bravo, atual Licínio de Almeida, minha terra natal. Ali, eu vivi a infância e adolescência, correndo, pés no chão, atrás das pipas, brincando de bandas musicais, circo, filmes, pique-esconde ou subindo nos galhos das frondosas mangueiras do quintal lá de casa. Liberdade, alegria, poesia, teatro e faz de conta na rua mais antiga da cidade, que depois virou rua da lagoa, depois rua de baixo e, finalmente, sem qualquer conotação cultural, foi batizada de rua Coronel Gasparino David. Eu, que tenho apreço pela semântica e a metáfora, prefiro “boca do vento”, nome original, onde o vento frio de junho, fazia a curva da lagoa e soprava aos nossos ouvidos os seus mistérios e encantos. 
E foi assim. Nasci ali, onde a cidade começou e hoje, meu peito ainda arde de saudade daquele tempo realizador, barulhento, cantante... Saudade das prosas temperadas com a pimenta e o afeto de dona Emília, mãe de Gildásio, aquele que ainda menino, aprendeu a tocar o sino da Igrejinha com maestria. Aos domingos, o sino batia suas badaladas, convidando os fiéis para a missa, mas quando morria alguém, as badaladas eram diferentes, fúnebres, lentas, tristes, compassadas. Lá de casa, minha mãe debruçada no tanque de lavar roupa, pedia silêncio e dizia: “escute, alguém se foi...” 
Ainda hoje sinto saudades de dona Eulina, sorriso fácil, voz rouca e baixa, castigada pelos acessos de tosse, mãos finíssimas e pequenas. Uma senhorinha forte, baixa estatura, corpo frágil e meio curvado, vendedora de saborosas cocadas de leite e pães que o Lolói trazia da padaria de Manoel. No tempo frio, mal o sol da manhã mostrava a cara, dona Eulina atravessava a rua em passos lentos, sentava-se no banco do canteiro, em frente à velha casa, ajeitava o xale azul nas costas franzinas e soltava os cabelos compridos, cor de prata, depois passava o pente entre os fios. Eu corria, sentava-me ao seu lado para ouvir as suas histórias carregadas de emoção. Dona Eulina era a boa vovó da meninada da Boca do Vento. Todos que passavam e a avistavam na janela ou no banquinho em frente, estendia-lhe a mão, pedindo: “bença dona Eulina”, ao que ela, sorridente, respondia: “Sandeus”. Eu achava lindo aquela resposta, cujo significado é simples e profundo: “somos de Deus”.
Na boca do vento eu sempre encontro inspiração para as minhas escritas. Sempre que a visito, (re)absorvo novos detalhes, jeitos, trejeitos, gente, simplicidade e dedos de prosa entre os amigos de ontem e de hoje. A história nasce e renasce, pelo que foi ou poderia ter sido. Historias de gente que vai e que vem, sempre a partir do seu marco histórico: a belíssima Lagoa do Gado Bravo. 
No seu passado glorioso, a nossa rua era de intenso movimento: pessoas para cima e para baixo, resolvendo questões na prefeitura, no cartório de seu Adalberto, na farmácia de seu Mirá, nos feirantes, nas mulheres diante do chafariz, que saíam equilibrando latas d’água na cabeça, como artistas circenses, de sorriso no rosto e força na lida. Tinha o pescado de Zé Maria, Rostil, seu Jeremias, seu Fidelcino, Toninho mãe-racha e outros pescadores de traíra, em volta da lagoa e da represa da rua de baixo.
Quem não se lembra do barulho dos alunos da Escola Julieta ou dos gritos dos doentes mentais que eram trancafiados na fria cadeia, às margens da lagoa? Ainda me lembro dos gritos de Alice, chamando a minha mãe: “me tira daqui comadre Eunice” e dos olhos marejados de lágrimas de Magna, sua filha, que morava conosco, e que ouvia aquele clamor de cortar o coração. Mãe se emocionava, enxugava os olhos e passava a mão sobre a cabeça da afilhada. Um sinal de consolo para aliviar as primeiras feridas que nasciam no coraçãozinho da menina...
E a encantadora Igrejinha de Nossa Senhora da Conceição e suas lindas procissões e quermesses ao som de sanfona, pandeiro, reco-reco e muitos leilões? Dos balaios e cabos de vassouras que Zé Surdo fazia; as chaleiras casco preto, cabo de panelas e as canecas de lata de óleo, fabricadas por seu Antônio Galvão e o corante/urucum que a dona Jovem preparava? Enquanto isso, lá na beira da lagoa, o cheiro de café torrado da casa de dona Emília invadia a rua e os fregueses saiam de lá com a vasilha cheia.
Logo acima, o trecho mais temido pela meninada. Quem nunca sentiu um friozinho na espinha ao passar no escuro das “bananeiras mal assombradas”, ao lado do curral, na chegada do casarão de dona Nena e Antônio Botelho? Era a nossa lenda urbana que parecia verdade, tinha gente que preferia passar pela montanha, mesmo sendo o caminho mais longo e se fosse meia-noite, nem adulto tinha coragem. Hoje não existe curral, bananeira e até o belíssimo casarão foi demolido. A lenda urbana foi sendo esquecida, mas permanece vive nas minhas histórias sobrenaturais.
No início da manhã e no final da tarde, passavam na rua de baixo, caminhões, caçambas e brucks para as minas da pedra preta, ventador, jacaraci e outras. Levantavam tanta poeira que irritavam as nossas mães. E não era sem razão: as casas da boca do vento tinham o piso vermelho cimentado e sempre brilhando com a cera e tome escovão. Quem não tinha, passava o pano com bombril que o piso brilhava e ficava uma belezura. Mas os carros da mineração voltavam no final da tarde, atravessavam a boca do vento, cheios de manganês e descarregavam no pátio da mineração. A gente costumava catar as pedras que caiam das caçambas e no dia seguinte montávamos a nossa mineração. Pacheco, Osmar e Gildásio faziam os carrinhos e eu, Wagner, Roque e Jorge, éramos os motoristas. Era uma festa no quintal lá de casa ou mesmo na beira da lagoa.
Agora, se tinha uma coisa que a gente vibrava, era a chegava do caminhão Bela Vista do seu Zé Amaral. Para nós, aquele furgão imenso, amarelo, era um verdadeiro armazém ambulante repleto de doces que faziam a nossa alegria: pé de moleque, maria-mole, coração de abóbora, sorvete seco; suspiro, geleia, doce de banana, chiclete ploct e ping-pong, embaré e pirulito...E o seu Zé Amaral gostava daquela euforia infantil, nos presenteava com balas e doces, como um Papai Noel fora de época. 
E as saborosas cocadas de dona Maria Rita? A gente gostava da dona Maria, era alegre, toda prosa, mas morríamos de medo da mais velha, a dona Ezupéria: jeito de homem rude, fechado e nunca sorria. Ela tinha fios de barbas e bigode brancos, o que nos deixava intrigados. João Gama e Martinho diziam que ela tinha um facão debaixo do saiote e se qualquer moleque lhe faltasse com o respeito, era capado por ela e os “documentos” jogados para os cachorros. Era mais uma lenda urbana maravilhosa. Verdade ou mentira, o fato é que a gente morria de medo da quase centenária dona Ezupéria.  
Então é isso, a minha inspiração vem desse terra linda, encantadora e aconchegante, onde ainda é comum o bate-papo  na velha e sempre saudosa Licínio de Almeida. Ali existem pessoas que são especiais apenas pelo fato de existirem. Quando elas chegaram  ao mundo, deixaram impresso uma marca diferente, que aos poucos se destacava, no olhar, no sorriso (ou na ausência deste), nos gestos suaves, às vezes imperceptíveis e nas centenas de impressões que formam os olhares, ora carinhosos, sinceros, afetivos, ora piedosos, lamentosos, curiosos, preconceituosos, ora frios, distantes, decepcionados, ora espantados, aterrorizados, desumanos... Curiosamente, essas impressões - às vezes definitivas -, confirmavam o quão especiais elas eram e ainda são.  
Falo de gente que nasce, cresce e morre cercado de uma auréola de simplicidade, beleza, ternura e muita graça. Assim é o povo que fez da lagoa do gado bravo, o seu canto preferido, as suas mais inusitadas histórias. Hoje a rua de baixo está bem diferente, silenciosa, poucas crianças, as famílias já não se sentam nas portas, poucos fazem a fogueira de São João, a Igrejinha está fechada e o sino esquecido... A lagoa resiste, cada vez menor, tomada pela vegetação que esconde as suas águas. Ao seu redor, não existe mais o nosso campinho, a cadeia foi demolida, a velha prefeitura está fechada, o cinema fechou, a farmácia fechou, a feira acabou, o hotel fechou, a escola Julieta fechou, a represa diminuiu e até a casa de dona Eulina já não existe mais... morreram dona Emília, dona Fiinha, seu Duzinho, dona Laura, dona Etelvina, dona Mariinha, Zé Maria, Rostil, seu Jeremias, seu Fidelcino, dona Eulina, dona Maria Rita, seu Antonio Botelho, dona Nena, meu pai Geraldo, meu tio Zé, meu sobrinho Guilherme, minha irmã Tida e tantos outros que fizeram história nessa rua de tantos nomes, mas que permanecem vivos na boca do vento, rua da minha vida e que continua fazendo a curva ao redor da lagoa do gado bravo.
Vida que segue...



João Rodrigues Pinto - SP

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